Biodegradável é bom para o meio ambiente?

“Não se preocupa! É biodegradável.” Esta foi a resposta que ouvi da minha avó jogando uma garrafa de óleo de cozinha usado diretamente no ralo da pia.

Se você acha que “Biodegradável” soa como “100% natural” ou “100% seguro para o meio ambiente”, você está errado! Neste artigo vou falar um pouco sobre a biodegradação.

O que é Biodegradação?

Bio é uma palavra derivada da palavra grega bios, que significa “vida”.

Degradação é a quebra de um composto em compostos menores.

Biodegradação é a decomposição biológica de determinada matéria pela ação de microrganismos que usam um substrato como fonte de alimento.

Trata-se de um processo natural que permite a reciclagem de elementos na natureza. Por exemplo, quando um ser vivo morre, a sua decomposição nada mais é do que um processo de biodegradação. Elementos químicos, como o carbono e o nitrogênio, que estavam presentes neste organismo são usados pelos decompositores para geração de energia e são incorporados novamente à natureza sob novas formas.

Então, a biodegradação acontece sobre matérias que os microrganismos conseguem utilizar para a produção de energia.

Logo, se um produto não pode ser consumido por microrganismos, não é biodegradável. É o caso de vidros e metais.

Adaptado de "What is biodegradability?". Disponível em https://materbi.com/en/about/biodegradability-and-compostability/

Mas o petróleo é um produto natural. Por que seus derivados não são biodegradáveis?

De fato, o petróleo é um recurso natural de origem biológica. O que ocorre é que, durante a fabricação de certos derivados de petróleo, este é convertido em materiais não reconhecidos pelos microrganismos como alimento. O polipropileno, por exemplo, possui ligações muito fortes, difíceis de serem quebradas.

Como estes elementos são muito recentes no mundo, microrganismos não desenvolveram vias para metabolizá-los. Em geral, quanto maior é o número de átomos de carbono, maior será sua persistência no ambiente e menor será a sua susceptibilidade à biodegradação.

Algo parecido acontece com o algodão (de origem vegetal) de que são feitas as roupas. As fibras sintéticas possuem estrutura complexa, que ainda é biodegradável, mas o processo é muito mais lento.

Além disso, outros processos tomam parte no processo de degradação da matéria, como fatores físicos (como temperatura, radiação UV e abrasão mecânica) e químicos (como oxidação e hidrólise). Produtos sintéticos normalmente são feitos para resistir a estes fatores, o que dificulta sua degradação, aumentando sua permanência no meio ambiente.

Ou seja, tempo é uma palavra-chave.

Nem todos os produtos biodegradáveis são feitos a partir de recursos renováveis, e nem todos os produtos de origem biológica são biodegradáveis.

Então, se é biodegradável, posso jogar direto na natureza?

Não. O fato de algo ser biodegradável não quer dizer que não causa impactos ambientais.

A biodegradação é dependente de diversos fatores. Dentre eles, podemos citar:

  • Processamento: quanto mais processado é o produto natural, menor a probabilidade de haver um meio de metabolizá-lo.
  • Condições físicas e químicas: parâmetros como temperatura, umidade, pH, oxigênio e disponibilidade de nutrientes são fatores que afetam a ação dos microrganismos sobre o substrato.
  • Presença de microrganismos: existem especificidades em vias metabólicas que fazem com que microrganismos “prefiram” certos alimentos. Assim sendo, é preciso que o microrganismo que biodegrada aquele material esteja presente no ambiente onde ele foi descartado e que não haja uma fonte de alimento mais acessível. Por exemplo, é necessária uma mistura de populações de microrganismos (dentre eles, bactérias e fungos) com capacidade enzimática para biodegradar de forma eficiente todos os hidrocarbonetos do petróleo bruto.
  • Disponibilidade de nutrientes: vias metabólicas são complexas. A degradação de um elemento muitas vezes depende de determinados nutrientes para acontecer. Dependendo da quantidade destes nutrientes presentes no meio, a biodegradação pode não ocorrer, ou ocorrer de maneira incompleta.

Compostagem é baseada na biodegradação

Perceba que a compostagem é baseada no processo de biodegradação, o qual ocorre em um ambiente específico, com características controladas.

De acordo com a Norma Europeia EN13432, para um material ser considerado compostável, ele deve apresentar, além da biodegradabilidade, características como capacidade de desintegração em um período definido de tempo, ausência de efeitos negativos como substâncias perigosas ou ecotoxicidade.

Detalhe que, se um material é definido como compostável pela norma, não quer dizer que você conseguirá compostá-lo em sua casa, pois podem ser necessárias condições que somente podem ser obtidas em ambientes industriais.

Ou seja, se você pegou uma sacola plástica biodegradável no mercado, é improvável que seja possível compostá-la em uma composteira doméstica.

Então, desde que a sacola seja comprovadamente compostável (e não simplesmente biodegradável) utilizá-las para o descarte de resíduos recicláveis não faz muito sentido. É mais interessante utilizá-las para acondicionar resíduos orgânicos que serão encaminhados para a compostagem, concorda?

Biodegradáveis podem causar impactos ambientais negativos

Perceba que produtos biodegradáveis podem causar impactos ambientais negativos.

Óleo de cozinha, por mais que seja biodegradável, causa diversos impactos. Por exemplo, muitos sistemas de tratamento de esgoto brasileiros não possuem estrutura para receber efluente com grande quantidade de óleo, o que faz com o tratamento seja ineficaz e este óleo alcance corpos d’água, contaminando-os. Além disso, o óleo pode formar placas de gordura no encanamento residencial, causando entupimentos e atraindo animais indesejados.

Algumas lanchonetes e mercados estão adotando canudos biodegradáveis. Descartá-los de qualquer forma causará o mesmo dano que canudos normais pois, como dito, deve-se haver condições específicas para que sua biodegradação ocorra.

Existem também no mercado luvas biodegradáveis mas, dependendo da utilização, esta característica de nada valerá. Se a luva entrar em contato com sangue, patógenos ou produtos químicos persistentes, ela deverá obrigatoriamente ser encaminhada para o devido tratamento como resíduo classe I.

Seguindo o mesmo raciocínio, oficinas, lava-rápidos e afins que utilizam aditivos de carro, óleos e outros produtos biodegradáveis não estarão livres do licenciamento e da instalação de sistemas específicos para o tratamento de seus efluentes.

Existem ainda alguns fatores que colocam em xeque o real benefício da biodegradação. Por exemplo, alguns produtos podem ter sua periculosidade aumentada após a biodegradação. É o caso do DDT, cujos produtos de decomposição (DDD e DDE) são mais tóxicos que o original.

Outro problema é que, mesmo constatado que a maioria das embalagens plásticas atendam a normas de biodegradabilidade, elas ainda podem manter sua forma física e a resistência por um bom tempo, mantendo seu potencial de impacto.

Então produto biodegradável é ruim?

Não. Produtos biodegradáveis possuem muitas vantagens, mas é preciso muito critério em sua adoção, tanto por parte dos usuários, quanto dos fabricantes e autoridades.

Eles podem fazer muita diferença na conservação do meio ambiente, principalmente aqueles que obrigatoriamente são descartados diretamente no solo, esgoto, água ou ar. Exemplos são shampoos, detergentes, amaciantes, desinfetantes, produtos agrícolas, dentre outros.

Mas, como dissemos, existem produtos que são biodegradáveis apenas em condições obtidas em ambientes industriais. E a falta desta informação pode levar o consumidor a descartar estes produtos de maneira incorreta acreditando estar fazendo o certo quando, na verdade, estará causando impactos ambientais tão graves quanto os causados pelo descarte incorreto de produtos não-biodegradáveis. Perceba que a simples informação "Biodegradável" pode , na verdade, aumentar a quantidade de resíduo descartado incorretamente.

É importante saber filtrar as informações. Ser biodegradável não torna um produto livre de impactos ambientais associados a seu uso.

Muitas empresas se aproveitam da falta de informação para ganhar vantagens no mercado, estampando nas embalagens de seus produtos que eles são biodegradáveis, mas não detalham em quanto tempo ou em quais condições isto ocorre. Simplesmente rotular um produto como biodegradável quando existem inúmeras condições controladas para que este processo ocorra é, no mínimo, irresponsável.

Por isso, conhecer o produto é fundamental para que seu uso e destinação sejam adequados. Caso contrário, as vantagens dos produtos biodegradáveis serão inúteis.

Faça sua parte. Sempre desconfie de informações simples demais, como as impressas em rótulos. Faça pesquisas mais criteriosas antes de tomar atitudes que possam causar danos ao meio ambiente e às pessoas.

Referências

BENTO, D.M. Análise Química da Degradação dos Hidrocarbonetos de Óleo Diesel no Estuário da Lagoa dos Patos – Rio Grande/RS. MAR 2005, Rio Grande – RS. Dissertação de mestrado.

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http://innprobio.innovation-procurement.org/fileadmin/user_upload/Factsheets/Factsheet_n_3.pdf - Acesso em: 07/08/2019

https://www.livescience.com/33085-petroleum-derived-plastic-non-biodegradable.html - Acesso em: 07/08/2019

https://materbi.com/en/about/biodegradability-and-compostability/ - Acesso em: 07/08/2019

https://www.sciencelearn.org.nz/resources/1537-biodegradability - Acesso em: 07/08/2019

INNOCENTI, F.D. “Short description of the norm EN 13432:2000 ‘Requirements for packaging recoverable through composting and biodegradation - Test scheme and evaluation criteria for the final acceptance of packaging’”. Novamont Mater-BI. Novara, Itália. Abril 2004.

Müller, R. Biodegradability of Polymers: Regulations and Methods for Testing. In Biopolymers Online, A. Steinbüchel (Ed.). 2005.

Poznyak, T.; Oria, J.I.C.; Poznyak, A. Ozonation and Biodegradation in Environmental Engineering - Dynamic Neural Network Approach. 1 ed. 2019; Pág. 353-388.

Prieto A. To be, or not to be biodegradable… that is the question for the bio-based plastics. Microb Biotechnol. 2016;9(5):652–657.

UNEP (2015) Biodegradable Plastics and Marine Litter. Misconceptions, concerns and impacts on marine environments. United Nations Environment Programme (UNEP), Nairobi.

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