O Caso Samarco e suas consequências

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“A Samarco informa que houve um acidente em sua barragem de rejeitos, denominada Fundão, localizada na unidade de Germano, nos municípios de Ouro Preto e Mariana (MG).

A organização está mobilizando todos os esforços para priorizar o atendimento às pessoas e a mitigação de danos ao meio ambiente.

As autoridades foram devidamente informadas e as equipes responsáveis já estão no local prestando assistência.

Não é possível, neste momento, confirmar as causas e extensão do ocorrido, bem como a existência de vítimas.

Por questão de segurança, a Samarco reitera a importância de que não haja deslocamentos de pessoas para o local do ocorrido, exceto as equipes envolvidas no atendimento de emergência.”

                                                           Portal Samarco, 05/11/2015

 

O caso Samarco marcou o ano de 2015 como um desastre de grandes proporções ambientais (há quem afirme que se trata do maior desastre ambiental da história brasileira). O rompimento da barragem de Fundão, a qual retinha rejeitos de mineração, demonstra a importância de um sistema de gestão eficaz.

Não cabe a nós julgar se a empresa é culpada ou não pelo ocorrido. Assim, este texto busca utilizar os fatos como uma forma de explicar como algumas ações de gestão são essenciais e quão oneroso pode ser um acidente.

Mariana
Imagem aérea do empreendimento e do subdistrito Bento Rodrigues, afetado pelo acidente. (Fonte: Google Earth)

LICENCIAMENTO

“As barragens da Samarco são compostas por quatro estruturas: barragens de Germano, Fundão, Santarém e Cava de Germano. Todas possuem Licenças de Operação concedidas pela Superintendência Regional de Regularização Ambiental (SUPRAM) – órgão que, nos recorrentes processos de fiscalização, atesta o comportamento e a integridade das estruturas. A última fiscalização ocorreu em julho de 2015 e indicou que as barragens encontravam-se em totais condições de segurança. A Samarco também realiza inspeções próprias, conforme Lei Federal de Segurança de Barragens, e conta com equipe de operação em turno de 24 horas para manutenção e identificação, de forma imediata, de qualquer anormalidade.”

                                                                                              Portal Samarco, 06/11/2015

 

A extração mineral, atividade desenvolvida pela Samarco, é enquadrada legalmente como atividade potencialmente poluidora, sendo passível de licenciamento ambiental.

O controle de licenças é um importante instrumento que permite o atendimento de condicionantes do órgão ambiental. Licenças próprias devem ser controladas para evitar que sejam cometidos desvios, mas licenças de fornecedores e prestadores de serviços também devem ser controladas. Ora, se uma empresa realiza ações ambientalmente adequadas, não faz sentido que a mesma adquira produtos ou contrate serviços que não o façam.

Normalmente o prazo que o órgão ambiental fornece para a solicitação de renovação da licença é de 4 meses antes do vencimento da mesma. Porém, é sabido que existe certa dificuldade quando tratamos de burocracia envolvendo órgãos públicos, e isto também deve ser considerado no controle das licenças.

Manter as licenças dentro do prazo de vencimento evita sanções frente às entidades de controle.

LAMA

“Informações sobre a composição do rejeito de minério de ferro

O rejeito é inerte. Ele é composto, em sua maior parte, por sílica (areia) proveniente do beneficiamento do minério de ferro e não apresenta nenhum elemento químico que seja danoso à saúde.”

                                                                                              Portal Samarco, 06/11/2015

Avanço da lama ao mar
Avanço da lama ao mar (Fonte: Portal G1)

A análise da Samarco considera a lama como não tóxica, assunto que provoca algumas controvérsias.

O fato é que o impacto ambiental não necessariamente é causado por substâncias tóxicas. Descarregar, por exemplo, uma tonelada de detergente biodegradável em uma lagoa causa grande impacto, pois haverá desequilíbrio nos elementos nela presentes. Da mesma maneira, o fato da lama ser constituída por material inerte não quer dizer que esta não cause impactos.

Assim sendo, note como é importante o minucioso levantamento dos aspectos e impactos ambientais. A correta análise da significância de um aspecto ambiental é essencial para a definição dos mecanismos de controle a ele associados. Um exemplo são listas de verificação aplicadas com regularidade e manutenções preventivas.

Uma lista de verificação bem elaborada e periodicamente revisada permite a identificação de falhas e sua imediata correção, prevenindo incidentes e acidentes.

São muito comuns os pensamentos: “Não vai acontecer nada de mais”, “Trabalho há não sei quantos anos desta maneira e nunca aconteceu nada de mais”. Subestimar a significância de um aspecto é um dos primeiros passos para a ocorrência do evento indesejado.

ATENDIMENTO À EMERGÊNCIA

“Conforme prevê o plano de resposta de emergência da barragem, solicitado pela defesa civil, a Samarco iniciou ontem a comunicação presencial com as comunidades, informando que, de forma preventiva, foram mobilizadas caminhonetes com sirene, disponíveis 24 horas por dia, para alertar sobre qualquer necessidade. Foram avisadas as comunidades de Camargos, Pedras, Paracatu de Baixo, Paracatu de Cima, em Mariana, e a comunidade de Gesteira, no município de Barra Longa.”

                                                                                              Portal Samarco, 10/11/2015

Bombeiro resgata cachorro preso à lama. (Fonte: Portal G1)

 

A elaboração de um Plano de Atendimento a Emergências é um trabalho complexo e muito importante. Ele descreve formas de como agir em casos emergenciais, assim como os recursos que a empresa possui para o atendimento a estas situações.

A realização de simulados de emergência é uma boa forma de avaliar o quanto o Plano está adequado à realidade da empresa. A análise do simulado é a oportunidade de verificar onde ocorreram erros e quais as oportunidades de melhoria no atendimento a uma emergência.

Uma vez ocorrida a emergência real, é essencial os funcionários saberem seu papel e que atitudes tomar para a melhor resolução do evento.

OS CUSTOS PARA A SAMARCO

“As operações da empresa na Unidade de Germano/Minas Gerais estão paralisadas. Na Unidade de Ubu, em Anchieta/Espírito Santo, as operações industriais serão paralisadas ao final dos estoques de minério, bem como as operações de embarque, que serão interrompidas ao término dos estoques de produtos.”

                                                                                              Portal Samarco, 08/11/2015

 

“Até o momento, mais de 300 profissionais da Samarco, entre psicólogos, assistentes sociais, médicos, enfermeiros, bombeiros, socorristas, engenheiros, veterinários e biólogos, entre outros, atuam no atendimento às comunidades, nos serviços de busca e resgate de pessoas e animais e nas ações de monitoramento e contenção da lama.”

                                                                                              Portal Samarco, 08/11/2015

 

“Neste momento, a nossa prioridade é o suporte ao resgate e ao atendimento de todos os que foram impactados. Portanto, informamos a decisão de conceder licença remunerada aos empregados que não estão diretamente envolvidos nas atividades relacionadas ao acidente.”

                                                                                              Portal Samarco, 09/11/2015

 

“Temos oferecido todo o apoio necessário às comunidades, disponibilizando água, cestas básicas, itens de higiene pessoal, material e equipamentos de limpeza, caminhões-pipa e ração animal.

Em Barra longa, por exemplo, as 21 pessoas desabrigadas já estão acomodadas e fizemos a distribuição de 300 cestas básicas, 8 mil litros de água potável, materiais de limpeza e 1.000 colchões. O serviço de limpeza do município e a abertura da estrada foram iniciados com o apoio de três caminhões basculantes, carregadeira, retroescavadeira e três caminhões-pipa fornecidos pela Samarco.”

                                                                                              Portal Samarco, 10/11/2015

Destroços em Bento Rodrigues. (Fonte: Portal G1)

Note quantos prejuízos são associados a este evento.

De forma imediata, podemos citar o prejuízo às pessoas atingidas. Casas destruídas, objetos pessoais perdidos, infraestrutura danificada, são danos que não atingem diretamente a empresa, mas seu entorno. Um bom sistema de gestão considera em suas análises tanto o meio físico quanto o meio antrópico em seu entorno.

Os prejuízos à empresa são inúmeros. O dano à barragem, além do dano estrutural, ainda provocou a paralisação das atividades. Sabe-se o quão importante é o bom aproveitamento das horas trabalhadas para a economia de uma empresa e a total paralisação de suas atividades é sinônimo de produtividade (e lucratividade) nula. No caso da Samarco, foram paralisadas as atividades de duas unidades.

Desabrigados
Desabrigados em alojamento. (Fonte: Portal G1)

Além disso, somam-se aos ônus da empresa: queda de ações na bolsa de valores; o atendimento às pessoas atingidas (fornecimento de moradia, água, alimento, etc) por tempo indeterminado; as multas recebidas; recursos investidos na mitigação do impacto; constantes análises para o monitoramento da eficácia das ações de mitigação; licença remunerada aos funcionários.

Estes são alguns dos custos tangíveis. Há ainda os prejuízos intangíveis.

A imagem da empresa é muito prejudicada. O acidente sempre será associado a seu nome e isto acaba afetando indiretamente seus negócios.

Além disso, a facilidade de difusão da informação atualmente pode levar à veiculação de informações negativas e até boatos, principalmente em redes sociais, o que também demanda tempo e, consequentemente, custo para a empresa desmentir ou retratar.

Danos psicológicos aos afetados também devem ser citados. Muitas pessoas não conseguem ou possuem muita dificuldade de se recuperar de certos traumas, o que afeta sua vida social e profissional.

O prejuízo ao meio ambiente é indiscutível. Como dito, qualquer alteração repentina e drástica causa impactos a um meio. A morte de animais, a alteração da qualidade do solo e das águas, são danos que, quando não são irreversíveis, possuem recuperação extremamente lenta. A dimensão do impacto também assusta, pois extrapola limites estaduais. Não há valor para este tipo de perda.

APRENDIZADO

Dependendo de como uma empresa lida com eventos indesejados, pode-se considerar o evento como uma oportunidade de melhoria. Um exemplo disso é a Petrobras, que após vários problemas ambientais, implementou e melhorou seu sistema de gestão. O alto nível do controle desta empresa, apesar de não ser 100% efetivo, traz excelentes resultados na prevenção de acidentes e impactos ambientais, sendo referência no Brasil.

CONCLUSÃO

Como dito anteriormente, não importa se há culpa ou não, pois os danos já ocorreram. Os pilares da sustentabilidade são o ambiental, o social e o econômico. Não se pode esperar de uma empresa que seja completamente comprometida com a causa ambiental mas, sem este pilar, não há sustentabilidade.

Assim, o sistema de gestão da empresa deve ser sólido o bastante para conseguir manter seus pilares erguidos e fortemente apoiados. Qualquer fraqueza em um deles pode levar a estrutura a desmoronar. E as consequências sempre são catastróficas.

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