Simbiose Industrial – imitando a natureza

Tempo de leitura: 5 minutos

Quem se lembra das aulas de biologia do colegial, onde eram abordadas as interações ecológicas entre os seres vivos? Uma das diversas interações estudadas é a simbiose (também conhecida como mutualismo), onde dois organismos de espécies diferentes interagem de maneira vantajosa para ambos.

A base desta interação foi estudada de forma que ela pudesse ser aplicada a organismos complexos artificiais: as indústrias.

Se você não conhece a ecologia industrial e um de seus principais braços, a simbiose industrial, vamos te atualizar agora!

A ECOLOGIA INDUSTRIAL

Não se sabe exatamente como surgiu o conceito, mas acredita-se que ele é aplicado há mais de 50 anos. Em 1991, a National Academy of Sciences considerou a Ecologia Industrial como um novo campo de estudo.

A ecologia industrial é vista como uma disciplina que compreende a teoria e a prática para a implementação efetiva do desenvolvimento sustentável, pois considera que o sistema industrial não apenas interage com o meio ambiente, mas é parte dependente dele. Ela leva em consideração tanto as necessidades econômicas humanas, quanto as sociais e ambientais, pilares fundamentais do desenvolvimento sustentável.

A aplicação dos conceitos da natureza em sistemas artificiais busca o equilíbrio e a integração entre sistemas ecológicos e industriais.

Fonte: adaptado de Trevisan et al. “Ecologia Industrial, simbiose industrial e ecoparque industrial: conhecer para aplicar”

A Simbiose Industrial é uma aplicação muito conhecida da Ecologia Industrial.

SIMBIOSE INDUSTRIAL

Em analogia ao conceito ecológico de simbiose, a simbiose industrial pode ser definida como uma interação entre diferentes indústrias, onde todas elas são mais beneficiadas do que se estivessem atuando isoladamente, resultando em transações mutuamente rentáveis e processos muito mais eficazes.

Normalmente, a ideia inicial da interação entre indústrias envolve o compartilhamento e reaproveitamento de materiais como resíduos, efluentes, energia e matérias primas. No caso de resíduos, a interação deve constar no PGRS. Saiba mais:

Resíduos Sólidos – A lei 12.305 e o PGRS

Mas na simbiose industrial isto pode ser extrapolado, com o compartilhamento de recursos humanos, experiências, informação e conhecimento. Obtêm-se, desta forma, resultados mais sólidos e permanentes, pois o processo envolve uma mudança cultural.

Esta mudança cultural tem como resultado o desenvolvimento de produtos melhores, com baixo custo, mais seguros e que envolvem menores impactos ambientais.

A simbiose pode envolver, além de outras indústrias, outros tipos de setores, como centros de pesquisa, órgãos governamentais e universidades. O pensamento, porém, deve se iniciar internamente na empresa, onde engenheiros, arquitetos, etc, desenvolvem trabalhos sobre uma base sustentável.

Existem, inclusive, ambientes projetados especificamente para proporcionar condições ideais à simbiose industrial, os chamados ecoparques. Estes ambientes são concebidos de forma a otimizar a interação entre as industrias participantes, com a instalação de ligações, vias, canais de comunicação, dentre outros, incentivando o desenvolvimento sustentável, promovendo empregabilidade e revitalizando áreas urbanas e rurais.

KALUNDBURG: EXEMPLO DE SIMBIOSE INDUSTRIAL

O município de Kalundburg, localizado na região da Zelândia, na Dinamarca, abriga o famoso ecoparque Kalundburg Symbiosis.

Neste sistema, o produto residual de uma empresa é usado como um recurso por outra empresa, em um ciclo fechado de colaboração local, onde as relações humanas são muito valorizadas.

O interessante é que o ecoparque não foi inicialmente concebido como tal, mas as oportunidades foram sendo aproveitadas ao longo de décadas até seu desenvolvimento. O papel da equipe de coordenação, responsável pelas comunicações interna e externa e por elevar o número de intercâmbios, foi fundamental.

Em 1961, a Statoil iniciou a utilização da água do lago Tissø em sua refinaria. Em 1972, ela começou a fornecer gás residual para a produtora de gesso Gyproc, para a secagem das placas de gesso.

Ao longo dos anos, mais empresas foram sendo ligadas à Kalundborg Symbiosis e, atualmente, há 8 empresas de diversos setores participantes do sistema, que conta com a participação do governo local e busca ainda mais integrantes.

O ecoparque ainda incentiva os estudos sobre a simbiose industrial, permitindo o acesso de estudantes e divulgando seus trabalhos.

IMPLEMENTAÇÃO

Os ecoparques podem surgir de duas maneiras: de forma espontânea ou de forma planejada.

Projetos espontâneos, que têm como exemplo a própria Kalundborg Symbiosis, nascem a partir de ações individuais que são canalizadas para a redução de custos ou aumento da lucratividade. Naturalmente outras ações surgem e os bons resultados acabam por atrair mais participantes.

Projetos planejados resultam da ação conjunta de empresas, organizações, universidades, governo, dentre outros, que estudam formas possíveis de interligações, para que as fábricas sejam conectadas desde a concepção do ecoparque.

Surpreendentemente, a prática mostra que os empreendimentos espontâneos possuem melhores resultados. Acredita-se que isto esteja associado a questões políticas, cenário em que o governo não considera adequadamente os interesses da empresa.

A prática também mostra que a proximidade geográfica não é um fator decisivo para o sucesso da simbiose. Existem, inclusive, exemplos onde a associação se dá entre empresas de diferentes estados ou países.

CONCLUSÃO

A implantação de uma simbiose industrial é extremamente desejada, mas é complexa e consiste em um desafio que exige períodos de longo prazo e trabalhos árduos. Apesar dos esforços necessários, os benefícios da associação são claros para todos os seus participantes, independente do nível de atuação.

É importante notar que qualquer empresa pode iniciar uma simbiose, independente da existência do ecoparque. Basta que haja um parceiro interessado em realizar a associação. Questões logísticas podem ser analisadas para o melhor desenvolvimento do projeto que, uma vez iniciado, pode incorporar novos membros ao longo do tempo.

Por isso, seja proativo. Como profissional de meio ambiente, apresente o conceito à liderança de sua empresa, estude os aspectos ambientais das atividades nela desenvolvidas, e procure por empresas interessadas.

Complexo, mas gratificante!

4 Comentários


    1. Realmente a simbiose é um assunto muito interessante. Continue acompanhando o AmbienteSST.

      Responder

    1. Que bom, Romário. Continue acompanhando nossos outros artigos!

      Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *